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Para onde vai o RPG?

Escrito por Alieksiei Karamázov em 02/14/2011

“O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana”.

(Johan Huizinga)

Já faz anos que escuto que o RPG está morrendo. E de tanto ouvir, muitos estão acreditando. É certo que o RPG não é um negocio rentável, como bem explicou Carlos Klimick (ouça em ZBCast 027). Mas tenho uma opinião bem diferente, digo que o RPG não morrerá…

O conceito moderno de RPG (Role Playing-Game) nasceu em 1974, com Dungeons & Dragons, denominado “Roleplaying-Game”. Em seu inicio, o D&D não foi mais do que um wargame um pouco diferente: onde se dirigia exércitos napoleônicos ou medievais se enfrentando uns aos outros, mas com a particularidade de que cada jogador conduzia um único personagem. E é essa particularidade que é o “Roleplaying-Game” e não apenas mais um wargame.

Essa é uma idéia poderosa, algo que fizemos durante toda a vida. As crianças aprendem imitando os pais (o que Albert Bandura chamava de aprendizagem social), depois elas aprendem qual é seu papel dentro da sociedade por meio dos jogos de faz de conta (leia o “Ócio Criativo” de Domenico de Masi).  O próprio ato de contar historias é algo que fazemos desde as sociedades primitivas, assim como a imaginação é algo que está presente desde os primeiros dias de nascimento, como bem salientou Freud em seu livro “Formulações sobre os dois princípios do fundamento mental”.

Portanto, o RPG tem em seu favor algo muito importante: o conceito é algo simples de entender, porque todos nos desde pequenos já éramos roleplayers. Quando “D&D” foi lançado, ele rapidamente começou a se popularizar, porque era uma evolução dos wargames: sendo mais fácil de identificar-se com um individuo (mesmo quando eram pequenas criaturas de pés peludo que gostam de comer) do que com um exercito. O crescimento do “D&D” deu lugar a novos RPGs: “Runequest”, “Tunnels & Trolls”, “Traveller”, “Empire of The Petalthrone”, “Em Garde”, “Boot Hill”, “Metamorphosis Alpha”, “Champions”, “Hero System”, e muitos outros.

Durante anos, este conceito seguiu expandindo e alimentando os jogadores de wargames e os fãs de fantasia e de ficção cientifica. Mas aos poucos, apareceram dezenas de jogos, com dezenas de suplementos, ampliações de regras e aventuras prontas. Hoje poderia se nomear 500 coleções de RPGs, se falarmos apenas dos que estão em inglês, sem contar o mercado espanhol, francês e alemão ou de jogos próprios lançados na web, além é claro dos RPGs nacionais!

Durante todo esse tempo, o RPG passou por mudanças, sofreu crises e criou suas próprias variações. Fomos do “D&D” ao “Vampiro”, quando o jogos deixaram os wargames e passaram a ser jogos narrativos! Não se pode negar a expansão da idéia. Claro que não é algo como na década de 90, onde o RPG no Brasil passou de um jogo oculto para Cult, um fenômeno causado por “Vampiro: A Máscara”, pelo nascimento dos “lives action”, onde se encontravam grupos de jogadores e propagandas de livros de RPG em revistas.

Entretanto, ainda hoje, o conceito ainda persiste. Quando se diz que o RPG está morrendo, eu creio que são as editoras de RPG que estão morrendo. Que o jogos de tabuleiro, o Xbox /Playstation, os MMORPG e o que mais inventarem, não acabarão com o RPG. Ainda seguiremos aqui! A indústria de RPG é desnecessária para jogar RPG. Não necessitamos de programadores como os videogames, não necessitamos de caixas e fichas de cartão como os wargames, não necessitamos de uma conexão para internet e não necessitamos nem de eletricidade. O RPG necessita apenas de algumas regras, de um grupo e de imaginação.

E graças à internet podemos encontrar muitos RPGs distribuídos gratuitamente de forma legal. E caso não exista mais nenhuma editora de RPG no Brasil, pode-se encontrar grupos de tradução e de jogo, além é claro dos muitos blogs e fóruns sobre o mesmo, que simplesmente substituem com maestria as antigas revistas. Mesmo depois do dia em que a última editora feche e se converta em uma empresa de videogames ou de jogos de tabuleiro, o RPG continuará existindo e se expandindo, seja como um sistema caseiro ou como um eBook. Nascendo assim uma nova geração de RPGistas… Ou um retorno as raízes do surgimento do RPG no Brasil. O RPG como um conceito é indestrutível e nunca terá fim, pelo menos enquanto houver imaginação!

E que rolem os dados!

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3 Comentários

  1. Poeta Bastardo disse:
    14 de fevereiro de 2011 às 17:12

    “Uma paixão expulsa outra, e a do jogo é de todas a primeira; o amor e a ambição enfraquecem com a idade, o jogo floresce quando tudo o mais passa.” (Abade de Choisy)

    O valor das pequenas coisas e de sua poderosa influência no indivíduo e no coletivo.
    Meu grande amigo, também redator do ZBCast, aqui expôs com êxito seu símbolo em defesa dos jogos Clássicos.

    Argumentando com base nos relatos históricos envolvendo o universo RPG e recheando as linhas com as relações psicossociais e filosóficas por onde estendem-se os ângulos e elementos inerentes à essas quase quatro décadas de Role Playing-Game, demonstrando como esse estilo de jogo que arrasta tantos fãs até hoje ainda continua em vigor e sucesso, e como não foi alvo da necrose contemporânea, afirmado por alguns editores, causada pela modernização exacerbada dos jogos e exploração deste por novos campos de acesso e novas formas de construção no modo como vemos a indústria dos Games na atualidade.

    Concordo com a defesa do autor.

    Concordo principalmente com sua afirmação referente a resistência do RPG ao tempo e de sua perspectiva sobre a alma vitalícia do Jogo tendo em vista a paixão pela simplicidade e ao mesmo tempo pelo alcance reflexivo que o Estilo alcança. Com seus roteiros, pelo Gênero, pela indução à leitura e incentivo à criatividade. Devemos preservar os elementos da nossa cultura (cultura humana) que realmente ajudam a estruturar um indivíduo versátil, pensante e ativo.

    Como diria o Poeta Mórbido: “…nunca terá fim, pelo menos enquanto houver imaginação! E que rolem os dados.”

    Responder
  2. Gabriel Luke disse:
    16 de fevereiro de 2011 às 19:13

    Ha! Falou bonito! Acabe o que acabar mas o RPG sempre poderá ser reeinventado! E mesmo que parece que as coisas estão quebrando eu vejo por outro lado. Só estão aumentando aqui no Brasil. Poxa! Já vi só esse ano serem lançados uns 5 sistemas novos, sem falar em vários suplementos. Tudo se recriando…

    Um Abraço \õ_

    Responder
  3. Xandão disse:
    17 de fevereiro de 2011 às 11:57

    O rpg não está morrendo. Está cada vez mais underground hehehe. Acho que tudo que se precisa pra jogar já foi inventado. Basta adicionar imaginação.

    Grande post. Um pouco melancólico, mas valeu o tempo perdido.

    Responder

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