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John Ronald Reuel Tolkien?

Escrito por ZBCast em 03/04/2009

No dia 24 de fevereiro recebemos um e-mail gigante do Marcelo Dior para o ZBCast 010 – Pub’talk: Livros, então segue aí o que foi escrito:

É isso aí. Hoje — ou melhor, a partir de 1954, com a publicação de O Senhor dos Anéis — você simplesmente não consegue escapar de John Ronald Reuel Tolkien. Não dá para ler uma historiazinha sequer de fantasia sem que ela seja: 1. Inspirada em O Senhor dos Anéis; ou 2. Oposta a O Senhor dos Anéis. E por quê? Porque a obra de Tolkien é um marco, um divisor de águas na literatura de fantasia. Então, pós-Tolkien, os autores de fantasia só têm duas escolhas, que o fazem conscientemente ou não, de imitar/inspirar-se em Tolkien ou rejeitá-lo. Muitos optam pela segunda opção, mas ainda sim não conseguem escapar de Tolkien, justamente por tentarem fazer algo diferente dele.

Não me entendam mal, galera do ZBCast. Eu adoro Tolkien, e O Senhor dos Anéis é uma das melhores — apesar de não ser a melhor — obras que já li, e sua influência na cultura ocidental é inegável e permanente. Sem ele, nós não teríamos o Dungeons & Dragons de Gary Gygax e Dave Arneson; A Torre Negra de Stephen King ou a série Shannara de Terry Brooks, ou mesmo o ilustre Harry Potter.

Terry Brooks, por exemplo, é muito bom. E é um daqueles autores que procura fazer sua própria fantasia (e não descaradamente chupinhada de O Senhor dos Anéis, como certos Christopher Paolinis andam fazendo) mas, ainda assim, é obviamente inspirada no tipo de alta fantasia que Tolkien fermentou e destilou a partir de inúmeras fontes mitológicas como só ele poderia ter feito (e tudo porque seu editor implorou por uma continuação de O Hobbit). Quase gosto mais da série Shannara do que de O Senhor dos Anéis — talvez por Brooks me apresentar personagens factíveis demais, com humores e aspirações, desencantos e desesperos muito parecidas com o que nós, pessoas comuns, teríamos numa situação similar à apresentada nas sagas do povo das Quatro Terras, eu não acho que ela seja melhor que a da Terra-média, com seus guardiões que praticamente enfrentam, sozinhos, legiões de inimigos sanguinários, tal qual os heróis gregos de outrora. Por mais que Tolkien não fosse um primor como autor literário (defeitos, há muitos) ele conseguiu passar uma certa textura em sua obra difícil de ser encontrada.

Felizmente temos gente como David Eddings, que se resolveu por escrever fantasia (ele escrevia em outros temas) quando, nos anos setenta, esbarrou com uma edição de O Senhor dos Anéis numa vitrine e surpreendeu-se por aquela história velha e boba (em suas próprias palavras) ainda ser editada. Eddings se formou no mesmo ano da primeira publicação de A Sociedade do Anel e, pode-se supor, leu-o na juventude. Assim, percebeu que o mundo da literatura fantástica poderia lhe oferecer algo, e voltou-se sobre velhas anotações e rabiscos que quase havia esquecido, para criar mundos de fantasia. Não é evidente nas obras de Eddings (que recentemente admitiu que a participação de sua esposa fora fundamental em quase todas as suas obras) qualquer influência de O Senhor dos Anéis; nem de aproximação, nem de afastamento da obra tolkeniana.

E então temos meus escritores favoritos, o casal David e Leigh Eddings, em minha opinião criadores de textos superiores aO Senhor dos Anéis. Eles criaram obras de fantasia de qualidade inimaginável (e, em minha opinião, inalcançável) com sacadas geniais como os deuses e a criação do mundo da tetralogia The Dreamers ou o sarcasmo afiado e o cinismo do protagonista de The Redemption of Althalus ante o descobrimento da magia ou da guerra santa que os deuses querem que ele comande. Este livro, The Redemption of Althalus é, de fato, em minha humilde opinião a melhor história de fantasia já escrita.

Voltemos. Já que a fantasia dos últimos cinqüenta anos não pode escapar de Tolkien, de um jeito ou de outro, então minha saída foi procurar por quem escreveu — ou já escrevia — antes de Tokien escrever seu famigerado O Senhor dos Anéis. E foi aí que finalmente voltei-me para a verborragia interminável de Robert E. Howard, até então desinteressante (eu sou um grande fã dos gibis de Conan o Bárbaro, a maior personagem de Howard, não da literatura que o originou).

Mas de início eu estava desconsolado. Não conseguia encontrar autores famosos que escreveram antes de Tolkien e que não fossem a mais descartável das literaturas de pulp magazines, como Howard, Poul Anderson ou Edgar Rice Burroughs (até há coisas boas nas histórias pulp, mas se tem que cavar muito). Até que descobri que a fantasia que eu desejava não estava no mundo da fantasia, mas da ficção científica! Explico.

Muitos autores e autoras de fantasia do começo e meados do século XX transitavam entre os dois gêneros sem muito pudor. De fato, muitos deles mantinham elementos de fantasia em suas obras de FC, e colocaram vários elementos de FC em seus textos de fantasia. E foi assim que descobri as obras de de Ursula K.Le Guin, Andre Alice Norton, Michael Moorcock e Anne McAffrey. Todos estes ilustres escritores são hoje simpáticos velhinhos nascidos nas décadas de 1920 e (no caso de Moorcock) 1930 que sabidamente foram influenciados por outros escritores ou já escreviam fantasia quando O Senhor dos Anéis fora publicado.

Infelizmente a maior parte desses autores é desconhecida das editoras no Brasil. Alguns até foram editados nos anos 1960 e 1970, mas parece que o brasileiro não tem tino para literatura de fantasia e FC. Graças ao filme de O Senhor dos Anéis, e à série Harry Potter, felizmente alguma literatura começa a ser traduzida, mas o peso da fantasia de qualidade ainda só se encontra nas sessões de pocket books em inglês das livrarias. Mas ao menos hoje eles são trazidos em grande volume, e chegam mesmo a ser encontrados em sebos (metade de meus pocket books já era usada quando os comprei).

Não é uma época de ouro para o fã de fantasia, mas talvez seja uma era de prata, tanto para quem quer explorar legados tolkenianos, como Elaine Cunningham e Bob Salvatore, ou mistos inusitados de fantasia com ficção científica, como Eoin Colfer e Philip José Farmer.

- MD

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3 Comentários

  1. Rsemente disse:
    5 de março de 2009 às 08:00

    Eles transformaram essa resposta em uma matéria: http://marcelodior.blogspot.com/2009/02/tolkien-estragou-literatura-de-fantasia.html

    Responder
  2. inominavel disse:
    5 de março de 2009 às 08:27

    Bom… eu tinha falado desse e-mail no ZBCast 011, e como o marcelo autorizou, está para todos os ouvintes lerem o que ele havia mandado.
    É aquele tipo de idéia que deve ser compartilhada ao meu ver!

    Responder
  3. Jr L disse:
    5 de março de 2009 às 11:12

    Olá. acabei de ouvir o cast sobre livros. Foi o meu primeiro ZBC. Meus parabéns! Nesse mar de Nerdcats-wannabes vocês conseguiram, rapidamente, criar um podcast com identidade. Criativo e informativo sem ser chato. Além de que, falar de livros é sempre bom. Pra completar, indicaram a obra de Douglas Adams!

    Continuem com o bom trabalho.

    High five! _0/\o_

    Responder

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