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Grimório – Tomo XIII

Escrito por Vigia em 06/19/2009

Grimório

Na décima primeira postagem desta coluna falamos sobre o que caracteriza uma aventura de RPG no estilo épico, portanto hoje decide falar de um gênero de personagem bem especifico, que pode se encaixar nesse contexto e em outros tantos. Trata-se do “herói trágico”, que você não verá descrito em livros básicos, suplementos, classes ou em regras detalhadas de criação, mas com certeza já esbarrou com vários deles em mesa. E uma definição apropriada deste tipo de PC pode clarear em nossas mentes essa idéia e facilitar a criação e desenvolvimento de personagens, seus percalços e possibilidades.

Herói Trágico

Ao longo de minha carreira como rpgista conheci alguns mestres que de forma equivocada acreditavam (espero que não mais hoje em dia) que os personagens têm que sofrer as piores injurias ao longo de uma campanha. O PC terá seu carro, propriedade ou bens roubados ou destruídos, sua mulher com alguma sorte apenas lhe enfeitara os cornos, seu patrão irá explorá-lo, inevitavelmente seus sonhos irão ser transformados em pó e o pior de tudo é que ele sempre sobreviverá para sofrer mais um novo dia.

O conceito de tragédia não se restringe a uma vida desgraçada para o personagem. Esse é um recado aos mestres, por favor, não façam de seus enredos uma releitura da história de Jó. A trajetória de um herói trágico apresenta dois elementos peculiares: o destino fatídico e o dilema.

Os clássicos gregos são nossa verdadeira fonte da tragédia e neles é recorrente por assim dizer o destino fatídico do herói. Assim, em histórias como Édipo Rei esse destino aparece na forma de profecia auto-realizável, pois ao consultar o oráculo de Delfos o rei (pai de Édipo) recebe uma previsão de sua própria morte e que sua esposa Jocasta seria desposada por seu assassino, no caso seu próprio filho.  Desse ponto em diante todas as ações do rei acabam por apenas concretizar sua própria ruína. Por outro lado em outra tragédia grega a vidente Cassandra não consegue que ninguém dê ouvidos aos seus presságios nefastos.

Diferente do herói épico que possui um destino digamos messiânico e luta para concretizá-lo, o herói trágico tenta evitar ou fugir de sua triste sina, tendo consciência disto ou não. Este sentimento de urgência e de lutar contra algo inevitável é a marca registrada da tragédia. Jogos como os antigos: Vampiro – A Máscara, Lobisomem – O Apocalipse e Mago – A Ascensão, têm esse elemento como tema principal. Pois há o eminente despertar dos Antediluvianos, a destruição de Gaia ou a vitória da tecnocracia sobre as demais tradições. Os sinais de que tudo está próximo do fim se anuncia a todo o momento e pode ser percebido no entorno dos personagens, imersos e sufocados nesse clima de desesperança e paranóia.

Se tudo isso já não fosse o bastante, nos suplementos para Storyteller era recorrente a Falha do tipo “Futuro Sombrio”, que era um prato cheio para jogadores kamikazes que realmente queriam sentir a corda no pescoço. Em GURPS temos a Desvantagem Vaticínio que explora este lado em jogo predeterminando um destino infeliz para o PC, o que pasmem, se for bem utilizado em uma campanha pode ser muito divertido.

Entretanto este conceito de destino não deve ser encarado como algo sobrenatural, não há este clichê, ele é subjetivo, os fatos e as decisões do personagem o levarão a este desfecho no clímax da estória. Os 300 de Esparta conheciam seu amargo destino e nem por isso deixaram de buscá-lo com suas próprias forças.

Por isso é importante salientar a segunda característica de uma tragédia que é o dilema vivido pelo herói. Vejamos, este tipo de personagem deve ter um conflito em suas idéias e crenças. Este conflito não é só pessoal, mas é vivenciado em oposição a sua realidade externa. O dilema é baseado em duas idéias inconciliáveis, não se pode optar por uma neutralidade e muito certamente o personagem não poderá voltar a sua conduta anterior ao dilema.

Portanto, alguns exemplos deste tipo de situação podem ser: o soldado romano famoso por ser impiedoso em sua caça aos cristãos que por fim acaba convertido ao cristianismo; ou o membro do partido nazista que ao se deparar com o horror do holocausto passa a combatê-lo. Ou seja, o personagem é confrontado com a realidade e as conseqüências de seus atos, e essa crise leva a rever preconceitos, posição política e filosofia. Como diz um provérbio judaico: “difícil não é fazer o que certo, o difícil é deixar de se fazer o que certo quando se sabe o que é o certo a ser feito”.

Costumeiramente vemos esse tipo de personagem mais em cenários históricos, mas no RPG faço destaque em sua funcionalidade particular em cenários Cyberpunk, onde o dilema moral deve permear o enredo. De forma geral, o herói trágico pode ser utilizado em qualquer cenário ou campanha, independente desta ser a proposta inicial ou não.

Como disse no início desta matéria se ter em mente viver um personagem destes em um role-play deve ser visto por um novo prisma e essa nova perspectiva nos impulsiona a novos horizontes. Matar monstros, conquistar fama e fortuna pode ser divertido por algum tempo, mas encenar ascensão e queda de um herói, sentindo na pele suas angustias e contradições pode ser algo empolgante e sem dúvida inesquecível.

Na próxima sexta-feira: Heroínas em ação

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