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Grimório – Tomo XI

Escrito por Vigia em 06/05/2009

Grimório

Recordo-me de quando meu amigo Xandão sabiamente dizia: “ -Vigia, ninguém quer mais saber de salvar a VILAZINHA não! Pros caras o negócio agora é salvar o MUNDO!”. Diante de tal bravata, o que faz de uma aventura um ÉPICO quando as coisas parecem tão banais?

Aventuras Épicas

Procurando responder a questão, primeiramente vamos definir o conceito de aventura ‘épica’. Não deve ser confundida com uma aventura de “nível épico” apresentada pelo Sistema D20, de certo não se trata apenas de heróis de nível acima de 20. Obviamente personagens com estes níveis serão verdadeiras lendas vivas e, portanto o mestre deverá oferecer desafios que beirão o poder dos titãs para fazê-los suar a cota de malha.

O épico em si é um gênero literário nascido dos clássicos gregos, sendo o estilo mais conhecido à epopéia. Neste período os bardos e trovadores contavam os heróis e seus feitos em suas obras com o diferencial de que eles não se detinham a contar e recontar fatos históricos como eles simplesmente ocorreram, mas é claro não por desleixo, o importante do épico era retratar tudo de forma muito viva e como se ocorresse ali naquele momento diante do espectador. O contador não se colocava como personagem da história, mas como um observador passível assim como seus ouvintes e digamos que enfeitava e acrescentava algo de fabuloso a narração. Como se diz “quem conta um conto aumenta um ponto”.

Mas trazendo este gênero para dentro do role-play (dramatização) podemos destacar algumas de suas características essenciais, como o tipo de herói e a presença marcante do sobrenatural em toda história que abrace esta proposta.

No que diz respeito ao herói ele deve ser um personagem de grande valor moral e/ou psíquico, isto vai muito além do seu poderio físico, muito pelo contrário ele será testado ao longo da história a todo o momento muito mais por sua conduta e integridade. O herói neste gênero é lembrado por alguma qualidade ou maestria acima dos demais, no caso posso destacar alguma destas características como astúcia (Ulisses), beleza (Paris), excelência (Aquiles), força (Hercules) e religiosidade (Enéias).

Este personagem não necessariamente será um semideus ou similar, digamos que sua presença de espírito é o diferencial, deve ser carismático a ponto de ser um exemplo a ser seguido de coragem, sendo um líder que serve de inspiração para os bardos e outros heróis. No entanto, este personagem pode até ser mal humorado ou mesmo cruel aos olhos do inimigo, mas nunca será alguém desonrado, perverso, mentiroso, mesquinho ou covarde. O conhecido anti-herói não se enquadra muito bem no gênero épico tradicional, desencoraje esta categoria de PC em mesa.

Outro diferencial é a presença do sobrenatural neste contexto, ora, mas não vemos isso a todo o momento em RPG’s do gênero fantasia medieval ou horror? Lógico que sim. No entanto, não deve ser tratado apenas no que tange os poderes, magias ou artefatos, o sobrenatural a que me refiro é na ordem do divino e do extraordinário. Ele estará marcado a cumprir um grande destino, e isso ficará evidente ao longo de sua trajetória, seja por meio dos oráculos, sonhos, premonições ou profecias. Ele se julgar o filho de um deus, pode até ser verdade dentro do conceito do cenário,  ou apenas uma explicação aceita pelo humildes plebeus ou ainda fruto dos  exageros dos bardos.

Escapar da morte certa por um triz, milagres e prodígios ocorrem com este tipo de herói. O filme épico Ben-Hur retrata a trajetória de  Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um rico mercador judeu, condenado ao assumir um crime que não cometeu, a escravidão nas galeras, sobrevivendo a um naufrágio torna-se um famoso gladiador e ao final em redenção presencia o calvário de Jesus Cristo e o milagre da cura de sua tia e irmã leprosas. Êita, agendazinha apertada essa!

Uma dor de cabeça que comumente vemos em mesa é o jogador que confunde coragem com burrice, que possui altos níveis e não se detém em exterminar uma dúzia de inimigos inferiores e mata homens desarmados. Este herói leva o heroísmo ao seu estremo, é humilde com os humildes, destemido, não recua quando em desvantagem, possui compaixão até por seus inimigos vencidos e é capaz de se sacrificar por seus amigos ou idéias. E o jogador deve ter consciência disto ou estará jogando apenas mais um aventura do gênero ‘capa e espada’ ou ‘espada e feitiçaria’.

Ser indestrutível e seguir a filosofia tridimensional “pilhar-matar-destruir”, não fará do PC um herói destes e sim apenas mais um fanfarrão.

As histórias das proezas dos personagens devem se perpetuar como lendas, portanto o narrador e seus jogadores têm de fazer da narrativa algo grandioso, exacerbando a dramatização em falas e ações, os amores são para a vida inteira, os heróis são fortes e apaixonantes, os vilões são vis e desprezíveis, a vida nem sempre é justa, assim como a vitória nunca é uma certeza. Morrer em campo de batalha por amor ou lealdade pode ser o prêmio por uma boa atuação. O sobrenatural não precisa ser explorado a todo o momento, mas se manifestará sutilmente ou de forma assombrosa no clímax da trama.

Na próxima sexta-feira: “Amar é…”

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